A importância do diagnóstico e da intervenção precoce no Autismo

O nascimento do bebê marca o início de seu desenvolvimento extrauterino, que será, a partir de então, acompanhado não apenas por seus pais, mas também por um especialista que é o pediatra. Pelo menos uma vez ao mês, durante o primeiro ano de vida, os pais levam seus filhos ao pediatra para uma consulta de rotina que tem como principal objetivo acompanhar o desenvolvimento infantil. Assim, além de monitorar o crescimento através das curvas de peso, estatura e perímetro cefálico, ele orienta os responsáveis quanto às questões dietéticas e de imunização. Esse acompanhamento é denominado puericultura.  Além disso, o pediatra deve observar o desenvolvimento motor, da linguagem, afetivo e cognitivo das crianças alertando os pais caso observe algo que não esteja dentro do esperado.

O desenvolvimento motor é o mais visível e conhecido dos pais. Desta forma, quando ocorre algum atraso significativo no amadurecimento postural ou na aquisição dos movimentos coordenados, os próprios responsáveis percebem e comentam com seus pediatras suas dúvidas e angústias. Já o desenvolvimento da linguagem, psicoafetivo, social e cognitivo são mais subjetivos, principalmente porque, ao final do primeiro ano de vida, os bebês não têm uma linguagem expressiva oral clara e estruturada a ponto de externalizar seus aprendizados e angustias, sendo ainda  afetivamente muito ligados aos familiares e cuidadores. Mas são esses aspectos subjetivos que podem revelar indícios primordiais de que algo não vai bem dentro da perspectiva do autismo. Pode-se dizer que a maioria das crianças com autismo não apresenta atraso em seu desenvolvimento motor, porém desde muito novos apresentam sinais de que o desenvolvimento da linguagem, da percepção de si e do outro não estão ocorrendo como o esperado.

Mas quais seriam esses sinais? E por que, ao serem observados, mesmo que sutilmente pelo pediatra, este deve orientar os pais para que seja realizada, o quanto antes, uma avaliação especializada?

Por volta de 3 meses, o bebê deve apresentar um determinado amadurecimento neurológico observado pela diminuição das respostas reflexas aos estímulos externos. Os movimentos voluntários começam a surgir, ainda que descoordenados. O desenvolvimento da percepção visual o impulsiona a ser um observador, cada vez mais minucioso, daquilo que acontece ao seu redor. Desta forma, passa a se interessar mais pela face do cuidador, por sua movimentação no ambiente e pelos objetos que o circundam. Essa característica, que tem base no amadurecimento neurológico de regiões cerebrais específicas, vai aos poucos possibilitando a formação de um vínculo social com o cuidador e possibilita o início da construção de suas percepções sobre o mundo que o cerca.

Aparecem, a partir de então, os movimentos voluntários na direção dos objetos e o sorriso social voltado para aquele que se aproxima e brinca com ele. Sua relação com o mundo começa a ficar mais intensa, seu olhar passa não só a observar o outro, como suas ações perante os objetos. Não quer mais ficar sozinho nos ambientes, usa o choro para chamar o cuidador e se acalma quando este chega. Seu desenvolvimento motor aos poucos vai permitir deslocamentos, como o arrastar e engatinhar, em busca dos objetos que deseja manipular. Quando está diante de uma dificuldade, passa a solicitar a ajuda do adulto, ora pelo choro, ora pelo olhar, levantando os braços em sua direção para ser pego no colo. Olha nos olhos do cuidador estabelecendo uma comunicação não verbal e começa um processo de imitar alguns movimentos e gestos. Ao final do primeiro ano de vida, a maioria dos bebês já aprendeu a bater palminha, a dar tchau e a apontar os objetos que deseja. Os sons (balbucios) que faziam aleatoriamente já lembram palavras ensinadas pelos adultos, podendo assim, até já estar usando algumas palavrinhas de forma funcional como “mama”, “papai”, “papa”, ‘ua” (rua), “au, au”, entre outras. Apesar do restrito vocabulário oral, demonstra compreender bem ordens simples, presentes em sua rotina, sem necessitar do apoio de gestos. Sua atenção deve estar dividida entre a exploração dos objetos, que agora adquire uma percepção maior de sua funcionalidade, e as brincadeiras que compartilha com o adulto. Demonstram prazer em estar com outras pessoas e passam a se interessar pelos pares, aproximando-se de outras crianças para observá-las brincando.

Um diagnóstico precoce encontra falhas nessas aquisições possibilitando uma intervenção que estimule habilidades de base primordiais para a comunicação social adequada e para a aquisição de aspectos comportamentais importantes para o desenvolvimento da criança.

Após o primeiro ano de vida, as consultas aos pediatras ficam mais espaçadas, porém não menos importantes. Se até o final do primeiro ano de vida não foram observados atrasos ou perdas das habilidades já mencionadas, daqui para frente a atenção deve estar voltada para o enriquecimento qualitativo e quantitativo do desenvolvimento da linguagem, do social e de habilidades cognitivas básicas.

As formas de brincar abandonam características manipulativas e sensório-motoras para adquirirem um valor simbólico. A criança começa a perceber que os brinquedos representam algo do “mundo real”, assim uma boneca representa um bebê, um carrinho deve ser friccionado contra o chão para poder andar como um carro de verdade. Aprendem a manipular os brinquedos com facilidade, percebendo suas características como formas e cores. O interesse em outras crianças também cresce, possibilitando maior aproximação e o início de uma busca para compartilhar brinquedos e brincadeiras.

Sua linguagem expressiva oral vai, durante os próximos doze meses, se desenvolver a tal ponto que, com a aquisição crescente de novas palavras, possibilitará ao final desse período a construção de pequenas frases com dois ou três elementos. Em alguns casos, a comunicação não verbal (gestos e expressões faciais) podem ainda suprir uma aquisição mais lenta da linguagem expressiva oral. Assim, características que diferenciam um atraso na aquisição da linguagem de um quadro de autismo são a intenção comunicativa, o desejo de compartilhar, o olhar como forma de comunicação e a utilização de gestos convencionais que se encontram falhos no autista.

Assim, tanto no primeiro ano de vida como no segundo, muitas aquisições podem ser observadas numa criança com desenvolvimento típico. Qualquer regressão comportamental, na linguagem ou na interação social, merece avaliação especializada. Caso seja constatado algumas dessas “falhas” no desenvolvimento, a estimulação terapêutica é indicada. Entende-se por intervenção precoce no autismo a estimulação terapêutica direcionada que ocorre, com  profissional especializado, assim que se detecta indícios do transtorno.

Como o cérebro ainda está em processo de amadurecimento existe maior plasticidade neuronal que possibilita maiores ganhos terapêuticos, e melhora significativa no quadro geral da criança. Quanto mais aproximarmos o desenvolvimento de nossas crianças com autismo, dos padrões típicos do desenvolvimento, menos dificuldades secundárias, ou seja, decorrentes dos déficits primários se instalarão no quadro. Desta forma, pode-se observar que, ao se intervir o mais cedo possível, maiores são as chances da aquisição da linguagem oral, da adequação dos comportamentos e do desenvolvimento de habilidades sociais necessárias para um “melhor estar no mundo”.

Porém, as intervenções só ocorrem quando os pais, além de alertados, se conscientizam da importância do tratamento. O diagnóstico, ou ainda a suspeita diagnóstica levantada pelos médicos, apesar de dolorosos são pontos de partida para uma intervenção adequada.

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