“Doença mental”, “transtorno mental”, “transtorno do desenvolvimento”, “dificuldade de desenvolvimento”, “doença genética”, “alteração genética”, “deficiência”… Vários rótulos, muitos deles histórica e biologicamente inadequados, a exemplo do grosseiro “doença mental”, mas nenhum deles é capaz de descrever o autismo (e, especificamente no meu caso, a Síndrome de Asperger) como eu descrevo no artigo de hoje.

Normalmente e atualmente, refere-se aos Transtornos do Espectro Autista (TEA), até 2013 conhecidos como Transtornos Globais do Desenvolvimento (TGD), grupo este que incluía outras condições/diagnósticos como a Síndrome de Asperger (o qual foi absorvido dentro da definição de autismo “de alto funcionamento”) como sendo “um espectro de condições psicológicas caracterizado por anormalidades generalizadas de interação social e de comunicação, e por gama de interesses muito restrita e comportamento altamente repetitivo”

(Wikipédia). No entanto, um diagnóstico é um rótulo e não é muito bom se ater aos mesmos, ainda mais quando se aplicam rótulos a pessoas…

Desde que soube de meu diagnóstico, eu sempre vi o autismo como algum tipo de diferença, algo que me poderia individualizar enquanto pessoa; na verdade, quando eu usava algum termo ditado por especialistas, sempre me referia ao mesmo como “síndrome” (um nome bonitinho para “um conjunto de sinais e sintomas que define as manifestações clínicas de uma ou várias doenças ou condições clínicas, independentemente da etiologia que as diferencia”, nome este que é muito usado na medicina e é usado, por exemplo, para a Síndrome de Down ou a Síndrome de Guillain-Barré – a primeira é uma condição causada por uma alteração genética, e a segunda uma doença neurológica), mesmo ele sendo referido, como em um antigo laudo psicológico que eu tinha, como sendo um “transtorno global do desenvolvimento”.

Só passei a usar o termo “transtorno” quando do advento do termo “Transtornos do Espectro Autista”, mas mesmo assim uso poucas vezes (outros termos que eu gosto de usar são “deficiência” e “neurotipo”, devido à influência de pessoas que eu conheci na internet; e mesmo assim, uso o termo “deficiência” em conotações neutras/realistas, como a do chamado modelo social de deficiência). Aliás, a única restrição que eu tenho é em relação ao uso do termo “espectro autista”, pois há aí, para mim, o uso de um termo guarda-chuva visando a cobrir uma variedade de sinais/sintomas ou de comportamentos variados, mas sem fechar um diagnóstico específico.

Também vi o autismo (e, no meu caso, a Síndrome de Asperger) como algo que, para o bem ou para o mal, pode fazer a diferença. Na verdade, os autistas e pessoas com Asperger são pessoas como quaisquer outras, mas com “qualidades e defeitos” exclusivos como a memória eidética e os interesses repetitivos (estes interesses são também característicos de neurotípicos, mas, nos autistas, eles podem se manifestar de maneira mais intensa, podem ser vários e ao mesmo tempo não ser mutuamente excludentes. Por exemplo: uma pessoa pode gostar de X e Y, outra de Y e Z e outra de X e Z, e uma quarta pessoa de W e X, entre outros casos, sendo W, X, Y e Z espécies de interesses, como seriados, livros e outros).

Ainda assim, creio que em uma coisa os autistas e os neurotípicos seriam iguais, e esta coisa seria a capacidade de ter sentimentos e expressá-los, ainda que de maneira diferenciada em alguns casos de pessoas autistas.

Bem, no entanto, eu creio que nenhum funcionamento da mente seja igual. E também creio que o autismo afeta as pessoas de maneiras diferentes. Você não encontraria dois ou três autistas com as mesmas características (ou sintomas, se preferir). Por exemplo: você pode conhecer uma pessoa autista com quadro de deficiência intelectual, com sensibilidade olfativa e altamente extrovertido, outro muito inteligente, porém tímido, sem hipersensibilidade e com problemas de relacionamento e outro ainda com inteligência média, mas reservado, que faz muitos movimentos de estimulação (stims, que são movimentos repetitivos, alguns agradáveis e outros desagradáveis e até talvez danosos, que servem, de acordo com alguns, para autorregulação do organismo e do cérebro de pessoas autistas) e que tem hipersensibilidade auditiva e visual…

Bem como também não encontraria dois ou três neurotípicos iguais!

Só muito recentemente, no entanto, que eu descobri que o autismo era algo do cérebro humano. E uma coisa que sempre marcou desde que eu descobri isso foi que nenhum cérebro é igual, apenas tem pontos fortes e fracos a serem explorados para não só garantir a nossa sobrevivência enquanto espécie, mas também para nos individualizar enquanto seres humanos e para mostrar que somos todos diferentes, apesar de tudo; ainda assim, é de se esperar que a sociedade tenha que impor padrões… mesmo para o cérebro humano.

Isso é muito ruim, pois acredito que, além de existirem cérebros e funcionamentos neurológicos diferentes, existem também, como diz um grande intelectual brasileiro, tipos de conhecimento e de saber diferentes. Ainda assim, há pessoas que insistem em dizer que, só porque tudo é diferente, tem que haver coisas superiores ou inferiores entre si.

Bem, não concordo muito sobre a questão de um gosto, preferência ou interesse (ou mesmo sobre qualquer coisa, por extensão) ser “superior” ou “inferior” a outro gosto, preferência ou interesse (ou outra coisa), são todos diferentes. Mas eu nem quero imaginar o que aconteceria se impusessem os gostos de uma minoria sobre as outras (ou sobre a maioria), como se isso fosse uma ditadura hipotética.

Também acredito que a sociedade tem muito a perder se autistas, Aspies e afins (e este “afins” é algo que inclui pessoas com deficiência ou “necessidades educacionais especiais” em geral) não forem inclusos socialmente, pois, caso a inclusão não aconteça ela pode perder pessoas que lhes seriam muito importantes para o melhor funcionamento e a evolução da mesma enquanto organismo em crescimento contínuo e controlado. Creio, aliás, que a discussão sobre a inclusão social de certas categorias é algo importante para a sociedade. E ela tem que acontecer através da educação e de melhores oportunidades para as pessoas.

Voltando à questão dos rótulos: parafraseando Temple Grandin, a famosa bióloga autista (e cujo livro O Cérebro Autista estou lendo e achando interessante), autismo e Asperger são parte de mim, mas não me definem. Assim como rótulos como “sonysta”, “fã de filmes de super-heróis”, “entusiasta do sistema operacional Android”… entre outros. Aliás, recomendo a você que seja sempre você mesmo, não importa o que digam.

No próximo artigo, eu tratarei da minha visão sobre os sinais/sintomas e comportamentos do autismo e da Síndrome de Asperger. Até mais!

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