Reza a lenda que o mês de agosto é aquele que, sabe-se lá porque, não acaba “nunca”.

E, para nós cariocas, este mês é igualmente atípico pois, muito embora ainda seja inverno, a temperatura oscila de forma intensa e, portanto,  podemos ser presenteados com dias resplendorosos de sol, seguidos por dias de chuva e frio ininterruptos.

E foi justamente na última semana deste mês, considerado atípico por muitos, que aconteceu o fato que dividirei neste post com vocês. Após um dia inteiro de calor intenso, a temperatura virou durante a madrugada  e amanheceu chovendo forte.

Desde o início do ano, JP tem um esquema de atividades diárias, tarefas de casa que ele deve realizar. Dentre suas tarefas estão: regar diariamente as plantas da varanda, forrar a cama, limpar os óculos, alimentar seu peixinho de estimação e etc…

Como pessoas com autismo têm facilidade de compreender tarefas incorporando-as à sua rotina, ele organizou sua própria rotina e decidiu que após o banho forraria a cama e, na sequência, regaria as plantas e depois iríamos para a escola. E assim acontece todo santo dia,  faça chuva ou faça sol, sem que esta ordem seja alterada.

Acontece que neste dia em que lhes relato, a mudança de temperatura tinha ocorrido de forma muito drástica e brusca e como nosso rapazinho toma banho quente, interceptei-o a caminho da varanda, tentando demovê-lo da ideia de regar as plantas naquele dia, recém saído do banho, em razão da ventania (já sabendo que as chances de obter sucesso em minha tentativa  seriam mínimas).

Como previa, ele se manteve irredutível e inflexível em seu “cronograma” de atividades. Resolvi mudar minha estratégia e sugeri a ele que, pelo menos, vestisse o casaco do uniforme da escola, procurando minimizar um possível “estrago”. Ele relutou, mas acabou aceitando.  Virei as costas e saí, às voltas com os afazeres matutinos, antes de levá-lo à escola.

Entretanto, mal havia chegado à cozinha, lembrei-me de que havia esquecido meus óculos na sala. Ao retornar, encontro o casaco jogado no sofá e vejo “horrorizada” JP, sem casaco, no meio da ventania, tranquilamente regando as plantas.

Quando retorna à sala, ele sequer me deu tempo de iniciar a “ladainha” habitual que com TODA certeza eu faria. Apenas olhei para ele e perguntei: “por que você TIROU o casaco?”

A resposta veio de uma forma que jamais irei esquecer: Porque chega uma hora na vida de um homem que ele é capaz de tomar suas próprias decisões, mamãe…”. Dito isso, ele se virou e saiu.

Não tive tempo de raciocinar e sequer de chamar sua atenção. Fui apenas até a varanda.  Muito embora estivesse ventando muito forte, o vento era quente – e não frio como eu estava pensando.

Talvez meu filho estivesse se referindo a isso. Talvez ele tenha levado isso em conta ao tomar sua própria decisão. Não é segredo para ninguém que as mães, em geral, se preocupam em demasia e, muitas vezes, esta preocupação é completamente sem motivação.

Reconheço que sou uma mãe preocupada ao extremo, muito além do que deveria. É provável que o autismo de meu filho caçula tenha colaborado, e MUITO, para que esta condição tenha se agravado ainda mais.

Existe ainda outro fato a ser considerado: há  13 anos eu venho tomando decisões por ele. E, por hábito, vamos nos acostumando a decidir tudo por eles, tendo a condição de nossos filhos ( autismo) como justificativa para nossas escolhas e atitudes. Entretanto, a fala de meu filho chamou-me à razão, pois independente do autismo, ele é um adolescente como qualquer outro e como tal, apresenta as típicas demandas da idade.

E é justamente na adolescência que os jovens iniciam este processo de busca por sua própria identidade e começam a cortar definitivamente o “cordão umbilical” que ainda os une a seus pais.

Reconhecer e identificar as necessidades de nossos filhos e em que momento eles estão prontos e para quê estão prontos, tendo em vista que cada um terá seu próprio tempo para isso, é uma tarefa difícil, mas para a qual precisamos nos adaptar, como tantas outras.

Assim sendo, meu filho sinaliza que as rédeas de sua vida também pertencem a ele e que, aos poucos, precisamos deixar que ele assuma todas as decisões que estiverem ao seu alcance assumir.

Seguiremos em frente, preparando-o da melhor forma possível para que, um dia, quem sabe, ele possa ser capaz de tomar todas as decisões de sua vida.

 

Denise Aragão

One Response to Tomando as próprias decisões

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